Ando sem inspiração nos últimos dias, muito por conta do volume de trabalho, que está grande. Estava há pouco pensando em postar algo sobre a deselegância de Caetano Veloso com Lula na semana passada, pois ontem à noite assisti a uma entrevista com o presidente, em que ele respondia muito bem à agressão. Não defendo Lula com unhas e dentes, cegamente, pois eu mesma já me decepcionei muito. Reconheço seus erros, seus muitos erros, mas reconheço seus acertos também. E o que Caetano fez foi agressão gratuita. Típico dele, para polemizar. Lula, questionado por Kennedy Alencar, em entrevista à rede TV, disse que sua resposta foi chegar em casa e ouvir a coletânea Chico Político, de Chico Buarque. Para ele bastou. Eu já tinha desistido do post quando recebi um e-mail, com notícias da Bahia. Uma delas diz que Dona Canô vai tentar ligar para Lula para se desculpar pelas ‘grosserias’ do filho… Que lição, não? E sabedoria, a essa senhora com mais de um século de vida, é o que não falta.
Costumo utilizar a internet para movimentar a minha conta bancária e pagar contas. Mas hoje precisei ir ao banco e aproveitei a hora do almoço para fazer isso. Ao chegar à agência, havia quatro pessoas à minha frente. Quatro homens: dois estavam em pé e dois sentados num pequeno sofá. Posicionei-me atrás do último da fila, mas logo fui surpreendida por um dos clientes que aguardava o atendimento, me oferecendo seu lugar no sofazinho. Era o mais velho da fila. Um senhor de calças, boina e cabelos brancos, usando um charmoso suspensório. Tinha mais de 70 anos, com certeza. Insistiu muito para que eu sentasse. Para ele parecia um absurdo uma dama ficar em pé enquanto dois cavalheiros aguardavam sentados. Mas eu não podia aceitar de maneira alguma. Recusei, porém muito agradecida. Quando ele deixou o banco, depois de ser atendido, fez uma pequena reverência, tirando a boina… Por mais que seja clichê dizer que ‘ não se faz mais homem como antigamente’, não me ocorre outro pensamento.
Dois anos atrás, nessa época do ano, estava em lua-de-mel na Riviera Maya, no México, e tive a oportunidade de passar o Día de Muertos lá. A festa começa, na verdade, com o Halloween, no dia 31 de outubro, e se estende até o dia 02 de novembro. Sim, é uma festa! Muito diferente daqui do Brasil, que costuma guardar o dia com certo pesar. Lá, todos os estabelecimentos comerciais, mesmo as menores “tiendas”, montam seus altares, com motivos que remetem ao dia, principalmente, divertidas caveirinhas. Tem caveira vestida de noiva, com roupa típica, criança, cachorro e por aí vai. Em meio às caveiras, fotos de ídolos mexicanos que já morreram, velas e muita cor! Não sei como eles encaram a morte no dia a dia, quando ela de fato leva alguém querido. Mas que já é um começo e tanto encarar esse dia com naturalidade e alegria, isso é.
O Januário da música de Luiz Gonzaga era o pai do rei do baião. Também tocava sanfona e foi quem incentivou o filho a aprender o instrumento. Mas como diz a música, Luiz veio para o “Sul”, ficou famoso e fez muito sucesso. Quando voltou para o sertão, com sua sanfona de 120 baixos, quis fazer bonito em cima de Januário, que ainda tocava só com oito baixos, no seu fole de sempre. Segundo a música, Luiz se deu foi é mal.
Luiz respeita Januário
Quando eu voltei lá no sertão
Eu quis mangar de Januário
Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte, botão preto bem juntinho
Como nêgo empareado
Mas antes de fazer bonito de passagem por Granito
Foram logo me dizendo:
“De Itaboca à Rancharia, de Salgueiro à Bodocó, Januário é o maior!”
E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó:
Luíz respeita Januário
Luíz respeita Januário
Luíz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Luíz
Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai!
Eita com seiscentos milhões, mas já se viu!
Dispois que esse fi de Januário vortô do sul
Tem sido um arvorosso da peste lá pra banda do Novo Exu
Todo mundo vai ver o diabo do nego
Eu também fui, mas não gostei
O nego tá muito mudificado
Nem parece aquele mulequim que saiu daqui em 1930
Era malero, bochudo, cabeça-de-papagaio, zambeta, feeei pa peste!
Qual o quê!
O nêgo agora tá gordo que parece um major!
É uma casemiralascada!
Um dinheiro danado!
Enricou! Tá rico!
Pelos cálculos que eu fiz,
ele deve possuir pra mais de 10 ontos de réis!
Safonona grande danada 120 baixos!
É muito baixo!
Eu nem sei pra que tanto baixo!
Porque arreparando bem ele só toca em 2.
Januário não!
O fole de Januário tem 8 baixos, mas ele toca em todos 8
Sabe de uma coisa? Luiz tá com muito cartaz!
É um cartaz da peste!
Mas ele precisa respeitar os 8 baixos do pai dele
E é por isso que eu canto assim!
“Luí” respeita Januário
“Luí” respeita Januário
“Luí”, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
Nem com ele ninguém vai, “Luí”
Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai!
Respeita os oito baixo do teu pai!
Quem já acompanha o blog deve ter lido o post O Samba é meu Papel, composto pelo Caco Barros, irmão de Léo, meu marido. Há uma semana, sonhei que estava ouvindo rádio e, de repente, o samba começava a tocar… na voz do Paulinho da Viola. Foi muito emocionante! No último sábado, dia 17, fomos ao show do Paulinho no Palace. E decidimos dar uma forcinha para o sonho se tornar realidade. Colocamos a música, que já foi gravada em estúdio, num pen drive, e saímos de casa com a missão de colocá-la nas mãos do Príncipe do Samba (embora ele diga que há outro). No bis começamos a nos preparar, Paulinho deu início à derradeira, Foi um rio que passou em minha vida, e nós fomos nos aproximando. Assim que o público levantou para aplaudir, Léo foi caminhado rapidamente até o palco, aguardou os cumprimentos da banda e gritou: “Paulinho, Paulinho, preciso lhe entregar isso” (mostrando o pen drive). Ele voltou para ver do que se tratava e mostrou seu assessor, que estava bem ao lado de Léo. O homem recebeu o “presente” e disse que entregaria… Bom, agora vamos torcer.
Junte uma carioca da gema, um alemão de Munique e um holandês de Amsterdã e terá um som de primeiríssima. Zuco 103 já tem 11 anos de estrada. Estrada europeia, é verdade. Afinal, não são tão conhecidos no Brasil quanto deveriam. Lilian Vieira (vocal), Stefan Schmid (teclados) e Stefan Kruger (bateria) fazem o chamado Brazilectro: letras quase sempre em português, falando de temas que remetem ao Rio de Janeiro, às praias, ao Carnaval, ao romance, com base eletrônica e pitadas bem jazzy. Influências afro-cubanas, etíopes etc. são comuns. Músicos de outras nacionalidades costumam acompanhá-los. Tive a sorte de ir a um show deles, há quase três anos, no Sesc Pompeia, baratíssimo. Se havia 100 pessoas era muito. Mas quem estava lá conhecia e dançou e se divertiu muito. Zuco é música alegre, que seduz, dá uma leveza, uma coisa boa e deve dar uma saudade danada para quem é brasileiro e vive fora do país. Bom, só ouvindo.
Um tempo desses, faz uns dois anos, tive um dos melhores sonhos da minha vida. De um realismo impressionante, me levou para um tempo em que eu nem era nascida, para um lugar que não existe mais, cheio de pessoas que já se foram. Sonhei que estava no lendário bar Zicartola. Reduto de sambistas no Rio de Janeiro de 1963/64, o nome não deixa dúvidas: os proprietários eram D. Zica e o marido Cartola. Ele comandava as rodas de samba e choro; ela, a cozinha. E eles estavam no sonho! Tocava um samba daqueles, que enchem os olhos da gente de lágrima, Cartola cantando e tocando sua caixinha de fósforos, a casa cheia e mais gente chegando, inclusive Paulinho (da Viola) e Chico. A alegria de estar naquele ambiente não se descreve. É maior que tudo. Alegria que eu revivo cada vez que recordo.
Ontem à noite estava com o rádio ligado, em casa, e tocou um samba lindo, com a cantora Jussara Silveira. A canção: Rosa Maria, de Aníbal da Silva e Éden Silva. Pesquisando hoje, soube que foi um grande sucesso do Carnaval de 50. Eu já tinha ouvido antes, mas demorei a lembrar com quem. Lembrei! Vejam só:
Esteban. Motorista que gentilmente me conduziu nas poucas horas livres que tive na viagem de dois dias à Cidade do Panamá, em agosto. Motorista, guia turístico e professor de História. Sabia absolutamente tudo sobre a trajetória do povo panamenho, desde o descobrimento do istmo por Rodrigo de Bastidas, em 1501, seguido de “Cristóbal Colón”, em 1502, passando pelas invasões dos piratas no século 17, até a ocupação norte-americana, que acabou em 2000. Eu não poderia ter tido um cicerone melhor do que ele. Mostrou-me o Canal, as ruínas de Casco Antiguo e outros pontos da cidade, incluindo detalhes e curiosidades, mostrando os melhores ângulos para fotos, e sacando, ele próprio, fotografias. Na parada para o almoço, que ele recusou, justificando tomar diariamente um café-da-manhã reforçado, com carne de porco, que ele mesmo preparava, conversamos sobre amenidades: futebol brasileiro, culinária panamenha, carros etc. Até que entrou no mercadinho onde estávamos uma família, com duas crianças. Ele me perguntou se eu tinha niños. Respondi que ainda não e devolvi a pergunta. Ele fez uma longa pausa, daquelas bem constrangedoras. Na sequência, uma negativa, que pelo tempo que demorou a acontecer, precisava ser explicada. Esteban, então, abriu seu coração e, em poucas palavras, contou a sua história. Teve uma niña. Com três aninhos, oito anos antes, sofreu um terrível acidente, que além da menina levou a mãe, sua esposa. Por isso ele próprio fazia seu café. Era “sozinho”. E Esteban ainda não se conformara. Eu o poupei de uma questão que permanece na minha mente: estaria Esteban na direção? Tentei levantar o astral que pairou em nossa mesa, dizendo que ele era jovem e teria uma nova família. E confesso que fiquei comovida por alguém que me conhecia há poucas horas ter tido tamanha confiança.
Já que a última parada foi na Liberdade, vale a dica de um restaurante chinês: Rong He (Rua da Glória, 622). A comida é muito gostosa, bem feitinha e picante. Mas o que justifica mesmo a visita é ver como os cozinheiros fazem o macarrão chinês. Há uma vitrine na cozinha, onde todos os clientes, inevitavelmente, se postam para assistir a um show de técnica. Não dá para comer antes de prestigiar o “espetáculo”. O mais engraçado é que o mestre-cuca não esboça entusiasmo algum. Já está muito habituado… Assistam!
Karolina Gutiez nasceu em São Paulo, onde vive, tem 28 anos, é jornalista, geminiana, torcedora do Corinthians e apreciadora de tantas coisas que não vale a pena tentar mencionar. Por isso, o blog vai ter um pouco de muita coisa.