Quase um ano atrás, estive em uma conferência de comunicação em Toronto que durou três dias. Já comentei rapidamente sobre isso, com enfoque na cidade, num post anterior. De todas as palestras as quais assisti, de profissionais de várias partes do mundo, a que mais me impressionou não falava sobre comunicação especificamente, embora este seja um tema que permeia praticamente tudo o que fazemos. A apresentação do jovem canadense Craig Kielburger até hoje é assunto de muitas conversas com amigos e familiares.
Co-fundador de uma instituição que luta pelos direitos das crianças no mundo, a Free the Children, Craig falou por mais de uma hora com plena desenvoltura sobre o tema de sua vida: crianças sem infância. O brilho nos olhos do rapaz, diante de uma plateia de centenas de pessoas, é algo raro no ambiente corporativo.
Ele começou sua apresentação relembrando seus 12 anos, quando, ao ver uma notícia no jornal sobre uma criança, de sua idade, que depois de anos de trabalho infantil havia sido assassinada, ele percebeu que nem todos os meninos e meninas ao redor do mundo tinham as mesmas condições que ele e seus amigos. Milhões, na sua descoberta, não iam à escola, tinham que trabalhar, não tinham o que comer, não brincavam, sofriam abusos.
Na sua inocência de menino, que estava chegando à adolescência, Craig decidiu fazer algo e no dia seguinte, pedindo permissão à professora, convocou os colegas de classe. Seis ou sete foram convencidos e desde então, hoje ele tem 28 anos, não pararam mais.
Craig contou que, por causa de sua iniciativa, teve a oportunidade de conhecer muitas personalidades mundiais. Nesse momento, no telão ao fundo do palco, começaram a ser projetadas imagens do jovem ao lado de figuras como Bill Clinton, Nelson Mandela, Kofi Anan. Esses encontros possibilitaram que a sua instituição ficasse conhecida e reunisse investimentos para construir escolas, levar água e tratamento médico a comunidades pobres, oferecer alimento para desnutridos.
No entanto, de todas essas pessoas, Craig garante que a que mais o influenciou foi uma simples professora. Quando se conheceram, ela relatou brevemente como sua vida havia mudado de rumo. Um dia, seguindo para o trabalho, viu uma senhora doente, na rua, precisando de socorro. Passou reto e foi dar aula. Mas não conseguiu esquecer aquela mulher necessitada e o fato de não ter feito nada a respeito. Não conseguiu dormir. No dia seguinte, fazendo o mesmo trajeto, deparou com a senhora, ainda em dificuldade. Decidiu, então, colocá-la dentro de um táxi e seguir para o hospital. Naquele momento, seu destino foi traçado e ela nunca mais deixou de ajudar um próximo necessitado em sua vida. Quando Craig terminou de contar esta história, o telão projetou a imagem dele, menino, beijando a tal professora, ninguém menos que Madre Teresa de Calcutá.
O que Craig queria nos mostrar era a importância de acreditarmos naquilo que fazemos. Mais do que isso: precisamos encontrar um sentido para o nosso trabalho. Precisamos ter emoção no que realizamos. Nosso olhar precisa brilhar! Ao fim dessa palestra, Craig foi aplaudido de pé, por muito tempo, por uma plateia de comunicadores que só parou de bater palmas para enxugar suas lágrimas.

