Eu e Léo começamos a colecionar as figurinhas para o álbum da Copa do Mundo desde o lançamento, em abril. Não foi influência da febre retratada depois em jornais de todo o Brasil, principalmente de São Paulo. Sem querer, estávamos fazendo parte desta vibe! E curtindo muito. Trocas no trabalho (durante o expediente, eu confesso), com os garotinhos do condomínio onde moramos, nas festas de aniversário etc. Nos dias em que as trocas eram bem sucedidas, ou em que comprávamos pacotinhos na banca de jornal, era o maior ritual lá em casa. Nos dividíamos: Léo marcava as conquistas na tabela de controle e descolava o papel de trás e eu colava no álbum. No começo ele brigava comigo, por colar um pouquinho torto. Depois desistiu de falar. Aí folheávamos, procurando curiosidades: o mais velho, o mais novo, o mais esquisito, um que nasceu no mesmo dia que eu; e analisando nossos primeiros adversários.
No sábado retrasado fomos ao Pacaembu, ponto de encontro semanal para trocas, tanto dentro do Museu do Futebol, quanto na banca de jornal da Praça Charles Miller, onde ficamos. Chegamos lá em busca de mais de 70 figurinhas. Passamos cerca de duas horas, trocando com crianças, idosos, casais, jovens, todo tipo de perfil. Demos entrevista para um correspondente de um jornal de Boston, no mínimo incrédulo diante do escambo generalizado. Duvido que em algum outro lugar do mundo isso ocorra.
Entre tantos pais e mães e seus filhos, que se divertiam muito, me chamou a atenção um menino de uns dez anos, com um bolo de figurinhas exageradamente grande, todo bagunçado, fora de ordem (sim, há toda uma organização, fundamental para garantir a produtividade das trocas). Parecia meio perdido, nós que o abordamos. Léo começou a arrumar as figurinhas dele, que nem sabia direito quais ainda precisava para completar seu álbum. Perguntei com quem ele estava, pois parecia desacompanhado, ao que ele apontou um carro. O pai não se deu nem ao trabalho de desligar o motor, nem estacionou. Deve ter dado alguns minutos para o menino fazer sua troca, sem um pingo de paciência. Pela quantidade de figurinhas que ele tinha, tive a impressão de que o menino podia comprar quantos pacotinhos quisesse. Mas isso era tão insignificante. Era nada perto daquele abandono num momento tão pai e filho, que deveria ser prazeroso para ambos.
Bom, conseguimos completar o nosso álbum. Agora dá um vazio…


